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domingo, 11 de maio de 2014

“COMO VAI PROIBIR QUANDO O GALO INSISTIR EM CANTAR?”

(o título do texto é um verso da canção “Apesar de você”, do compositor, escritor, poeta e músico Chico Buarque de Hollanda)

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã.
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(João Cabral de Melo Neto)

Árvore da Vida. Leitura de mim mesmo. 

Revirando alguns papéis esses dias, reencontrei um diário autobiográfico que marca um período da minha passagem como professor. A primeira epígrafe dele eram palavras do memorável escritor brasileiro Machado de Assis: “a vaidade é um princípio de corrupção”. Lendo-a foi inevitável não recordar da atual situação dos ipanguaçuenses e da cidade em si. Lendo-a é impossível não acrescentar, como leitor crítico, à ideia machadiana. Na verdade, em nossas últimas vivências, diante dos últimos acontecimentos e interligando esses aspectos a tantos outros esparsos pela nossa história posso dizer que em Ipanguaçu a vaidade não só foi princípio da corrupção, como também vem sendo a grande responsável pelo mantenimento dela. A vaidade aqui tem princípio, tem se desenvolvido, mas é imprescindível que cada um de nós e todos lutem juntos pelo seu fim. 

Sendo do Porto, com vínculos mais que afetivos na Picada, e residente no bairro Ilha Grande, antigo Presidente Lula, sou Cidadão Ipanguaçuense. Confesso que nessa condição, sinto-me constantemente preocupado com os caminhos que têm tomado a nossa cidade e dos caminhos que certos grupinhos oligárquicos, coronelistas e oportunistas, principalmente, vêm engendrando para nosso chão. Mais impressionante do que as ações vaidosas desses comparsas dos tempos de outrora é o inaceitável comportamento ignorante, acéfalo e medíocre de parte da nossa população, que dá credibilidade a esse picadeiro do fracasso. Plantado pelo ex-gestor municipal, que mais geriu seus interesses particulares e os dos seus vassalos do que propriamente os do povo ipanguaçuense, há uma adágio popular muito caro a Ipanguaçu, segundo ele: o povo não tem memória. Vejamos, então, como isso respalda as atitudes vistas até aqui. 

Atual candidato pela oposição, nosso dileto ex-gestor tem em seu histórico de vida pública e política muito mais do que se pensa. Conhecido por posturas arbitrárias e ditatoriais; ligado a uma série de escândalos envolvendo o uso inadequado das verbas públicas em fins particulares; responsável pelo fechamento ou depredação de, pelo menos, várias instituições públicas do município, boa parte delas na zona rural; mantenedor e articulador do jogo coronelista na política local; principal responsável, em contexto local, pela ligação estúpida entre voto-benefício particular; sendo professor, perseguiu professores que lutavam pelos direitos da categoria docente, envergonhando a mim e a tantos outros que fazem da missão de ensinar/educar um ofício de vida; tentou destruir comunidades por simplesmente desgostar dos seus representantes; teve sua prestação de contas reprovada em âmbito legislativo; foi condenado a devolver montantes significativos de dinheiro ao erário público dados os seus desmandos com aquilo que é de todos e não de alguns. Aqui, sim, temos um retrato claro de uma vida política dedicada aos esquemas de corrupção, de violação dos direitos públicos e de desrespeito para com o povo que o elegeu continuamente, para o povo que acreditou, e para o povo que de tanto acreditar, desacreditou. 

Leonardo da Silva Oliveira, prefeito eleito em 2008, gestor municipal de janeiro de 2009 a março de 2014, atualmente cassado pela justiça eleitoral com a justificativa de ter comprado votos. Se bem me lembro, eu tinha uns 12 ou 13 anos quando o conheci melhor. Era professor particular dos filhos dele e desde moleque já notava o quão responsável ele era, como empresário, pai, companheiro. De 2009 até então, é impossível escrever aqui que não tenho notado erros na gestão pública, que não houve falhas e falhas, e que a cidade está muito bem e de nada precisa mais, pois já dispõe de tudo. A hipocrisia não permeará essa breve reflexão. No entanto, mais difícil ainda é não atestar, como ipanguaçuense, o quanto cresceu esta cidade em todos os aspectos que se possa tratar aqui. Antes que algum leitor ou leitora pare e pergunte – “Mas e o ex-gestor? Ganhou o Selo UNICEF e construiu mais de mil casas!” – eu os esclareço: (a) O Selo UNICEF é uma premiação conquistada a muitas mãos, não apenas pelas do gestor; e (b) sobre as mil casas, ótimo, uma boa ação, por mais que perpassada de desvios, casos de infraestrutura precária e distribuição duvidosa. Continuemos. 

Na gestão que teve à frente Leonardo Oliveira, a saúde conseguiu galgar avanços e conquistas que antes eram tão distantes quanto a esperança de ser curado na sua cidade. Nessa mesma gestão, a educação municipal esteve constantemente em evidência pelo que de bom realiza, destacando as educadoras e educadores como grandes artífices desse crescimento, valorizando-os pedagógica e financeiramente. Políticas de incentivo aos pequenos negócios do campo e aos homens e mulheres do campo são ações efetivas no município. As práticas esportivas e a valorização dos desportistas, bem como o incentivo às crianças e adolescentes nesse sentido, ressurgiram das cinzas, tal qual uma fênix. Em se tratando de cultura, no seu estado mais amplo, real e excelente, a cidade onde vivo recriou seu povo e sua arte, colocando o sensível e o belo à disposição de todos os cidadãos. Economicamente, basta observar o centro comercial da cidade, retrato de que o dinheiro gerado em Ipanguaçu circula em Ipanguaçu, na sua maior expressividade. 

Não escrevo isso como romântico, apesar de sê-lo. É a constatação de que, independente do que se diz ou do que se propaga pelas ruas e mesas de bar, a cidade tem crescido. Tem estado em constante desenvolvimento. Na gestão do ex-prefeito Leonardo Oliveira, ocorreu algo que nunca se viu tão vivamente em nossa cidade: a reunião de um grupo extremamente competente, sonhador, visionário – um grupo de pessoas capazes de gerir sua própria cidade, capazes de utilizar seus conhecimentos e habilidades em prol dos ipanguaçuenses, sujeitos que juntos têm contribuído para grandes conquistas em diferentes campos. O mais bonito de atestar: somos ipanguaçuenses. Esses aos quais me refiro são ipanguaçuenses! São jovens oriundos das classes sociais menos favorecidas, jovens que estudaram nas escolas municipais daqui, jovens que cresceram e apareceram aos olhos dos que aqui moram. São homens e mulheres que construíram e constroem suas vidas aqui na cidade. Esta tem sido uma gestão de ipanguaçuenses, uma gestão construída pelos ipanguaçuenses e direcionada aos ipanguaçuenses.

O afastamento de Leonardo e a iminente eleição suplementar em nossa cidade são o espectro do quanto o passado ainda permeia e rodeia cada canto desse chão que é nosso. É muita ingenuidade crer que um simples bilhete de autoria e veracidade duvidosas, algumas fotografias e uma denúncia sejam capazes de anular a legitimidade popular de 1.800 votos de maioria numa eleição, fato nunca ocorrido nos autos da nossa história política. Esclareço-lhes: tal qual Machado de Assis apontou, a vaidade é o princípio da corrupção. Muitos foram os acordos, o dinheiro liberado, as índoles compradas, as armações ratificadas para se chegar ao quadro que ora enfrentamos, coisas que fogem ao nosso conhecimento em sua materialidade completa, coisas que não esperávamos acontecer em esferas sociais tão sérias. O ex-gestor que ora pleiteia retornar ao cargo de prefeito em nossa cidade jamais assentiria de cabeça baixa para uma realidade tão bonita que vinha se instaurando em Ipanguaçu. Ainda mais quando ela passa pelas mãos de um homem sério, de caráter reconhecido e de mãos limpas – o que nem todos podem dizer que são ou que têm. Recordo de um trecho de uma canção da rockeira baiana Pitty: “atribui ao outro a culpa por não ter mais, declara as uvas verdes, mas não fica em paz. Ah, por quê? O fracasso lhe subiu a cabeça!”. Talvez a vaidade e a certeza de ter fracassado sejam o maior motivador para essa caça tão voraz ao ex-prefeito Leonardo Oliveira. Afinal de contas, a inveja é um sentimento muito destrutivo, pois nasce no momento em que descobrimos que há gente melhor que a gente. Nasce, principalmente, quando não suportamos, não aturamos, não aguentamos ver gente melhor que a gente. E mais: quando somos incapazes de ser mais, fazer mais, crescer mais. A inveja nasce aí: quando admiramos o jardim do outro, a beleza do outro e esquecemos nosso próprio quintal, nossas próprias belezas. E, como Sartre escreveu: o inferno são os outros. 

São tempos de eleição e isso é inegável. Infelizmente, pouco podemos esperar em relação ao retorno de Leonardo Oliveira, mas ainda podemos fazer muito pelos destinos da nossa cidade. As crianças, segundo pesquisadores, retratam nos seus desenhos uma realidade que anseiam. Nós, enquanto cidadãos, ipanguaçuenses podemos desenhar um destino melhor e sermos autores da nossa própria história. Assumo de público minha posição política de não contribuir para que o erro novamente se instaure em Ipanguaçu, para que o passado fique exatamente onde está, para que a minha cidade possa construir e edificar sonhos a partir de uma realidade que já é conhecida, já é consistente e só tem a melhorar cada vez mais. Aos estudantes, como eu, lembro-lhes: nós somos o futuro desse lugar e o que fazemos hoje respaldará muito do que viveremos amanhã. Por isso, façamos o nosso melhor nas urnas, porque se errarmos ou defendermos o erro, jamais se poderá esperar nada de melhor dessa cidade, porque num lugar onde jovens estudantes desvalidam sua história, invalidam o percurso dos seus homens e mulheres, esperemos apenas a barbárie e o desmando. Aos homens e mulheres ipanguaçuenses, só peço-lhes uma coisa: que relembrem. Revisitem as memórias de vocês. E fazendo isso, ressignifiquem-nas. Como estudioso da memória, afirmo: não há memória curta, não há povo sem memória. Elas estão aqui, dentro de cada um de nós, nos nossos corações, nas nossas mentes, talvez adormecidas, mas estão lá.

O convite que faço a vocês é que parem e relembrem. O ato de relembrar nos ajuda a entender melhor que homens e mulheres somos hoje. Relembrar nos torna cidadãos plenos e críticos e, principalmente, não alienáveis. A melhor que leitura que podemos fazer é a de nós mesmos. Antes de ler a palavra, antes de ler o mundo do outro, leiamos o nosso próprio mundo! O que está em jogo nisso tudo é muito maior do que quem ocupará ou não os cargos de prefeito e vice-prefeito. O que está em jogo atualmente é o destino e a memória do nosso povo. 

Nosso compromisso, como ipanguaçuenses, é dar continuidade aos trabalhos que vêm sendo realizados, e dando continuidade, cobrar melhorias, maiores implementações, contribuir para a construção das políticas públicas, assegurar espaços e vozes. Esse é o maior papel do cidadão, da cidadã. Este é um dever. Não cabe a nenhum de nós elegermos alguém pelo benefício que nos virá particularmente. Porque se assim for, o que fazemos aqui então? O que eu faço com meus alunos ao lhes falar sobre o valor da coletividade, sobre a cooperação, sobre a importância do outro? O que vocês fazem ao falar aos seus filhos sobre a importância de um bom futuro, de uma sociedade séria, que respeita, que se mostra unida? Como ipanguaçuense, e como gente, tenho uma vida muito curta, o que talvez possa invalidar minhas palavras diante de vocês, caros leitores. Mas de alguma forma elas serão audíveis em cada um, porque escrevo como quem ama, porque escrevo o que vivo. Não tenho compromisso algum com a ignorância, com a arbitrariedade ou com a maldade. Com relação à maldade, só um questionamento mais: você confiaria em alguém cuja vontade de vingar-se é maior que tudo, alguém que vê na vingança, e não no perdão, a maior virtude do homem? Lembrando Paulo Freire: “não há política sem educação, nem educação sem política”. Como educador, como professor, como sujeito em constante formação e aprendizado, também sou ser político. E discuto política. Para politicagem minha paciência é ínfima. Defendo o que ora defendo porque acredito seriamente que isto é o melhor para a cidade, para o povo e, principalmente, porque é uma chance ímpar de encerrar os desmandos e a empáfia daqueles que ainda esperam que a festa recomece, que a luz reacenda, que a noite reaqueça e que o povo volte. 

É o momento para que o povo reflita em torno de um pensamento do cientista Albert Einstein que me parece muito pertinente para a situação: “o único modo de escapar da corrupção causada pelo sucesso é continuar trabalhando”. E para os que esperam pouco, ou quase nada, para esta cidade onde cresci, onde vivo, onde tenho tantas boas e lindas memórias, referendo-lhes em Drummond: “se você gritasse/se você gemesse/se você tocasse/a valsa vienense/se você dormisse/se você cansasse/se você morresse...”. Nem se tudo isso acontecer, a vontade do povo poderá ser suprimida pela ganância dos outros. A justiça de que falo é aquela que se faz nas urnas, com consciência e profundo senso de coletividade, bem-comum e humanização. Sejamos fortes e sigamos acreditando, porque como cantou Chico Buarque de Hollanda, “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. 

(Prof. André Magri Ribeiro de Melo, aluno do curso de Letras Vernáculas da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, UERN.)

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