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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Grandes empresas e pouco avanço


A instalação de grandes empresas nas cidades do Vale do Açu nas últimas décadas deveria representar desenvolvimento. Mas, na prática, as pessoas da região não viram suas vidas melhorarem. Basta dar uma olhada no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) desses municípios para constatar que os indicadores socioeconômicos não evoluíram com a chegada da chamada agricultura moderna. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o IDH de todos os municípios do Vale está abaixo do Estadual, que já não é dos melhores. Nenhum município da região tem IDH igual ou superior a 0,7, numa escala de 0 a 1. O melhor IDH é registrado em Alto do Rodrigues (0,688) e o pior em Porto do Mangue (0,598), enquanto que o Rio Grande do Norte tem IDH 0,705. Os dados são do ano 2000.



Bananas produzidas no Vale do Açu não melhoram a vida da população, que está abaixo da linha de pobreza, conforme o Atlas


O que está acontecendo então que empresas como a Delmont não promovem o desenvolvimento das localidades onde está instalada? Para o professor do departamento de economia da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e doutor em desenvolvimento rural pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Emanoel Márcio Nunes, a resposta é simples: o modelo de grandes empresas adotado no Vale e em outras regiões não promove o desenvolvimento local.

Emanoel estudou o setor agrícola do Polo Assú-Mossoró para sua tese de doutorado e defendeu que grandes empresas como a Delmont, Maisa e Frunorte sugam as riquezas das localidades em que se instalam e não deixam nada em troca.

O professor disse que o modelo baseado na grande empresa tinha a intenção de modernizar a agricultura e eliminar os pequenos agricultores e transformá-los em empregados. Para ele, esse modelo é vantajoso para um pequeno grupo de empresários, que operava com o dinheiro subsidiado pelo Estado, enquanto que os trabalhadores acabaram sendo “escravizados”.

Emanoel lembrou que as “gigantes” fecharam com o fim da farra dos subsídios. “A Maisa, em Mossoró, e a Frunorte, no Vale, fecharam e não deixaram resquícios de desenvolvimento”, destacou, acrescentando que, na verdade, a região ficou ainda mais empobrecida.

De acordo com o professor, o modelo de criar polos industriais morreu nos anos 70 nos Estados Unidos, “mas no Nordeste ainda é muito forte. A Maisa e a Frunorte são frutos desse modelo, que busca resultados imediatos. O Governo coloca uma grande empresa numa cidade e espera que as coisas se transformem do dia pro outro, quando o correto seria criar políticas consistentes para desenvolver as potencialidades existentes na região”, ressaltou.

Abaixo da linha de pobreza


Mesmo contando com a presença de um gigante do setor alimentício, o município de Ipanguaçu não consegue se desenvolver e melhorar seus índices sociais. De acordo com o Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil, 41.4% da população da cidade está abaixo da linha de pobreza. Outros 27.1% da população está entre a linha de indigência e pobreza. Enquanto que apenas 31.4% da população está acima da linha de pobreza.

Para o professor Emanoel, esta é mais uma prova de que as grandes empresas não resolvem os problemas sociais das cidades. Mesmo com a Delmont empregando milhares de pessoas, a cidade continua na miséria. “Esses empregos são na maioria das vezes subumanos”, observou.

A mesma tendência de pobreza é seguida por outros municípios que concentram grandes empresas. Em Baraúna, município que herdou grande parte da produção de melão antes feita no Vale, 37.5% da população está abaixo da linha de pobreza. Outros 32% estão entre a linha de indigência e pobreza. E somente 30.5% da população de Baraúna está acima da linha de pobreza.

Apesar dos números, o prefeito do município, Aldivon Nascimento, afirmou que as grandes empresas da fruticultura dão uma grande contribuição social para o município ao gerar milhares de empregos. “Onde há emprego, há desenvolvimento”, argumentou. Os empregos são, justamente, a única contribuição dessas empresas para o município, já que elas são isentas de impostos.

Aldivon reconheceu que a sazonalidade dos empregos e a migração das empresas são grandes problemas, mas voltou a reiterar que os empregos gerados pelo sistema fazem girar a economia da cidade. “O nosso município tem a sorte de ter a fruticultura”, destacou.

A riqueza gerada pelas grandes empresas nos municípios não representa desenvolvimento certo geralmente porque essa riqueza é mandada para fora. O município de Porto do Mangue, por exemplo, tem a segunda maior renda per capita do Vale do Açu, mas também o pior IDH da região. A cidade tem riquezas, mas o povo não consegue acessá-las. Em Porto do Mangue, 41.4% da população vive abaixo da linha de pobreza. 30.2% da população está entre a linha de indigência e pobreza. Enquanto que apenas 28.4% da população está acima da linha de pobreza.

O município de Assú tem renda per capita três vezes menor que Porto do Mangue, mas apresenta índices de desenvolvimento humano superiores.

O IDH de Assú (0,677) é o segundo melhor da região, inferior apenas ao de Alto do Rodrigues (0,688), que tem renda per capita quatro vezes maior. Enquanto que o percentual da população abaixo da linha de pobreza (25,1) é quase metade da registrada em Porto do Mangue. “Os governos precisam entender que o desenvolvimento se dá por baixo, começando pelo pequeno, através de políticas sustentáveis. Se a política de apostar no grande continuar, vamos ter sempre uma região sem desenvolvimento, especialmente social”, ressaltou Emanoel.



fonte: Magno Alves - do Jornal de Fato

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